Golfinhos têm nomes próprios? O que diz a ciência

Lila Hawthorne

Geupdate op:

Os golfinhos realmente têm nomes para se chamar?
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Os golfinhos-roazes (Tursiops truncatus) são um dos poucos animais não humanos que desenvolvem sinais vocais únicos e estáveis para se identificar perante os seus semelhantes. A investigação científica acumulada ao longo de décadas confirma que estes cetáceos utilizam o que os biólogos designam por assobios de assinatura — sons individuais que funcionam, em muitos aspetos essenciais, como nomes próprios. A questão não é apenas curiosa: tem implicações profundas para a compreensão da cognição animal, da linguagem e da comunicação não humana.

O que são os assobios de assinatura

Um assobio de assinatura é um padrão sonoro único, com contorno de frequência característico, que cada golfinho produz de forma consistente ao longo da vida. Ao contrário de muitas vocalizações animais que são inatas e partilhadas pela espécie, estes assobios são aprendidos e individualmente distintos: cada animal cria o seu próprio, tal como os humanos recebem nomes que os distinguem dos demais.

A descoberta formal do fenómeno remonta à década de 1960, com os trabalhos pioneiros de W. N. Kellogg e, mais tarde, de Melba e David Caldwell, que demonstraram que cada golfinho possui um assobio que lhe é próprio. Desde então, investigadores da Universidade de St Andrews, do Wild Dolphin Project e de outras instituições aprofundaram consideravelmente o conhecimento sobre a função, o desenvolvimento e a complexidade destes sinais.

Como os golfinhos desenvolvem o seu “nome”

Nos primeiros meses de vida, os golfinhos-roazes jovens passam por um período de aprendizagem vocal intensa. O filhote não recebe um nome passivamente: inventa o seu próprio assobio, num processo guiado pela aprendizagem vocal por produção. O animal experimenta variações sonoras, observa os sons dos congéneres próximos — sobretudo da mãe — e vai ajustando o seu assobio até este ser suficientemente distinto dos que já existem no seu grupo social.

É um processo que apresenta paralelos com a forma como as crianças adquirem a linguagem: há imitação, mas também diferenciação deliberada. Estudos publicados no Proceedings of the National Academy of Sciences demonstram que as mães modificam os seus próprios assobios de assinatura na presença dos filhotes — produzindo versões com frequências máximas mais elevadas e maior amplitude, num comportamento análogo ao baby talk humano, que pode facilitar a atenção, o laço afetivo e a aprendizagem vocal do filhote.

Uma vez estabilizado, o assobio de assinatura mantém-se reconhecível durante pelo menos 12 anos, e possivelmente ao longo de toda a vida do animal — uma estabilidade notável para um sinal aprendido.

Os golfinhos chamam-se uns pelos outros pelo nome

A questão mais fascinante não é apenas que cada golfinho tem um assobio único, mas que os golfinhos utilizam os assobios de assinatura de outros para se dirigirem a eles — ou seja, chamam-nos pelo nome. Investigação publicada na revista Proceedings of the Royal Society B pela equipa de Vincent Janik, da Universidade de St Andrews, demonstrou que golfinhos em liberdade respondem de forma seletiva quando ouvem a reprodução do seu próprio assobio de assinatura, e que reproduzem assobios de assinatura alheios em contextos de separação ou reencontro.

Mais do que um simples sinal de identidade, estes assobios funcionam como representações mentais de indivíduos: o golfinho que produz o assobio de assinatura de outro demonstra ter uma representação interna desse congénere, o que implica um nível de cognição social raramente documentado em animais não humanos.

A cópia de assobios ocorre sobretudo entre indivíduos com laços sociais estreitos — pares mãe-filhote e alianças entre machos adultos. Nos machos, a cópia do assobio de um aliado próximo parece ter funções de coordenação e coesão grupal, sem evidência de função enganosa.

Para além da identidade: emoções e contexto

Durante décadas, os assobios de assinatura foram estudados principalmente como etiquetas de identidade. Investigação mais recente, publicada em 2025, sugere que estes sinais transportam informação muito mais rica. Uma equipa de investigadores australianos analisou variações nos assobios de assinatura de golfinhos selvagens e concluiu que as alterações de parâmetros acústicos — como a frequência, a duração e o ritmo — podem codificar estados emocionais ou contextuais, funcionando como uma espécie de expressão facial sonora: o mesmo “nome”, produzido com diferentes inflexões, transmitirá significados distintos.

Em maio de 2025, uma equipa de investigadores arrecadou o inaugural Coller-Dolittle Prize, precisamente pelo progresso acelerado em direção à comunicação bidirecional entre espécies, com os golfinhos como um dos principais casos de estudo. O prémio reconhece que a investigação nesta área passou de uma curiosidade académica de nicho para uma fronteira científica com metodologias rigorosas e resultados replicáveis.

Inteligência artificial ao serviço da descodificação

Em abril de 2025, a Google anunciou, em parceria com o Georgia Institute of Technology e o Wild Dolphin Project, o lançamento do DolphinGemma — um modelo de inteligência artificial com cerca de 400 milhões de parâmetros, treinado em mais de 40 anos de gravações áudio e vídeo de golfinhos em ambiente selvagem. O modelo utiliza o tokenizador SoundStream para representar eficientemente os sons dos golfinhos, com o objetivo de identificar padrões recorrentes, sequências e estruturas que possam indicar organização semelhante à linguagem.

Tal como um modelo de linguagem prevê a próxima palavra numa frase, o DolphinGemma procura prever o próximo som que um golfinho irá produzir com base nos padrões observados. O sistema foi concebido para correr em dispositivos móveis — nomeadamente telemóveis Pixel 9 — de forma a poder ser utilizado diretamente no campo, durante as sessões de observação. A Google comprometeu-se ainda a disponibilizar o modelo em código aberto para que outras equipas de investigação possam adaptá-lo ao estudo de outros cetáceos, como golfinhos-pintados ou golfinhos-rotadores.

Em 2026, o Wild Dolphin Project continua a implementar estas ferramentas nas suas expedições anuais nas Bahamas, onde estuda uma população de golfinhos-pintados (Stenella frontalis) há mais de cinco décadas — um dos conjuntos de dados comportamentais mais extensos alguma vez recolhidos sobre cetáceos.

O que distingue os assobios de assinatura de uma linguagem

Apesar da riqueza do fenómeno, os investigadores são cautelosos ao evitar a equiparação direta com a linguagem humana. Os assobios de assinatura são sinais altamente estereotipados e referenciais, mas não demonstram ainda, de forma conclusiva, as propriedades de produtividade ilimitada e sintaxe composicional que caracterizam as línguas naturais humanas.

Contudo, investigação recente identificou cerca de 20 tipos de assobios partilhados por múltiplos golfinhos, usados em contextos específicos — o que sugere a existência de unidades de comunicação com significado contextual partilhado, um passo relevante em direção a algo que se aproxima de um léxico rudimentar. A questão de saber onde termina a comunicação sofisticada e começa a linguagem está longe de ser consensual na literatura científica.

Perguntas frequentes

Os golfinhos realmente têm nomes próprios?

Sim, no sentido funcional: cada golfinho-roaz desenvolve nos primeiros meses de vida um assobio de assinatura único e estável, que os congéneres reconhecem e reproduzem para se referirem a esse indivíduo — de forma análoga ao uso humano de nomes próprios.

Como é que um golfinho aprende o seu assobio de assinatura?

O filhote não recebe o assobio passivamente: inventa-o num processo de aprendizagem vocal ativa, influenciado pelos sons dos congéneres próximos, mas de forma a garantir que o resultado seja suficientemente distinto dos assobios existentes no grupo. A mãe desempenha um papel facilitador ao modificar o seu próprio assobio na presença do filhote.

Os golfinhos usam os nomes uns dos outros para comunicar?

Sim. Estudos demonstraram que golfinhos em liberdade reproduzem os assobios de assinatura de outros indivíduos em contextos de separação ou reencontro, o que indica que utilizam estes sinais para se dirigirem a indivíduos específicos — e não apenas para se auto-identificarem.

O que é o DolphinGemma?

É um modelo de inteligência artificial desenvolvido pela Google em parceria com o Georgia Tech e o Wild Dolphin Project, anunciado em abril de 2025. Foi treinado em mais de 40 anos de gravações de golfinhos e procura identificar padrões e estruturas nas vocalizações destes animais que possam indicar organização semelhante à linguagem.

Os assobios de assinatura constituem uma linguagem?

A maioria dos investigadores é cautelosa na resposta: os assobios de assinatura são sinais referenciais sofisticados, com funções sociais claras, mas ainda não demonstram de forma conclusiva as propriedades de produtividade ilimitada e sintaxe composicional características das línguas humanas. A investigação em curso, incluindo com recurso a IA, procura esclarecer esta questão.

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