El Nino voltou a ser notícia em 2026. Depois de um período dominado pelo fenómeno La Nina, as previsões climáticas apontam para o regresso de El Nino com força considerável entre maio e julho de 2026, com potencial para se tornar um dos episódios mais intensos das últimas décadas. Perceba o que é El Nino, como funciona, que impactos pode ter no clima global e se Portugal tem razões para se preocupar.
O que é El Nino?
El Nino é um fenómeno climático natural que ocorre no oceano Pacífico equatorial e que afeta o clima de todo o planeta. O nome, de origem espanhola, significa “O Menino” e foi dado por pescadores peruanos que notaram, por volta do Natal, o aquecimento anómalo das águas do Pacífico junto à costa da América do Sul.
Em condições normais, os ventos alísios sopram de leste para oeste no Pacífico equatorial, empurrando as águas quentes para o Pacífico ocidental (zona da Austrália e Indonésia) e permitindo que águas frias e ricas em nutrientes subam à superfície junto à costa sul-americana. Durante El Nino, estes ventos enfraquecem ou invertem-se, fazendo com que as águas quentes se acumulem na parte central e oriental do Pacífico.
El Nino e La Nina: o ciclo ENSO
El Nino e La Nina são as duas fases opostas do chamado ENSO (El Nino-Oscilação do Sul), um ciclo natural de variabilidade climática:
- El Nino: Aquecimento anómalo das águas do Pacífico equatorial (anomalia positiva de temperatura)
- La Nina: Arrefecimento anómalo das mesmas águas (anomalia negativa de temperatura)
- Fase neutra: Condições próximas da média climatológica
O ciclo ENSO repete-se, em média, a cada 2-7 anos, com episódios que podem durar entre 9 meses e 2 anos. Nos últimos anos, os cientistas têm debatido se as alterações climáticas estão a tornar os episódios de El Nino mais frequentes e mais intensos.
El Nino 2026: o que dizem as previsões
As previsões meteorológicas para 2026 apontam para um cenário de preocupação crescente. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM) e o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF):
- Existe uma probabilidade elevada de desenvolvimento de condições de El Nino entre maio e julho de 2026
- O fenómeno poderá ser forte a muito forte, com anomalias de temperatura da superfície do mar a ultrapassar os 2°C na região Nino 3.4
- Há uma probabilidade de 25% de El Nino muito forte (anomalia superior ou igual a 2°C) durante o trimestre novembro-dezembro-janeiro de 2026-2027
- 2026 está a caminho de ser o segundo ano mais quente de sempre, parcialmente impulsionado por El Nino
Este episódio pode ser comparável aos históricos de 1997-1998 e 2015-2016, considerados os mais intensos do século XX e início do século XXI respetivamente.
Impactos globais de El Nino
Quando El Nino se instala com intensidade, os efeitos fazem-se sentir em múltiplas regiões do mundo:
- América do Sul (Peru e Equador): Chuvas torrenciais, inundações, deslizamentos de terra
- Austrália e Indonésia: Secas severas, maior risco de incêndios florestais
- América Central e Caraíbas: Seca intensa, falhas nas colheitas
- Sudeste Asiático: Secas e neblinas de fumo provenientes dos incêndios
- África oriental: Aumento das chuvas; África austral: seca
- América do Norte: Invernos mais suaves no norte, mais chuvosos no sul
- Globalmente: Aumento das temperaturas médias anuais
El Nino e Portugal: que impactos esperar?
Portugal continental fica geograficamente fora da zona de influência direta de El Nino. A Europa, em geral, está demasiado afastada do Pacífico para sentir os efeitos mais dramáticos do fenómeno. No entanto, esta não é razão para descanso:
- El Nino contribui para o aumento das temperaturas globais, potenciando as vagas de calor na Península Ibérica
- Embora os efeitos diretos de El Nino em Portugal sejam ténues, as alterações climáticas amplificam os fenómenos extremos, independentemente do ENSO
- O risco de incêndios florestais em Portugal continua a ser o principal perigo climático em 2026 — não necessariamente por causa de El Nino, mas pelas condições de temperatura e seca já instaladas
- O Atlântico Norte pode reagir indiretamente ao aquecimento do Pacífico, alterando padrões de teleconexão que influenciam a precipitação e os ventos na Europa Ocidental
Num artigo do jornal Público de maio de 2026, um climatologista português declarou: “Portugal pode estar a salvo do El Nino direto. Não está a salvo das alterações climáticas e do fogo.”
Efeitos sobre a temperatura global em 2026
O El Nino de 2026 soma-se ao já elevado aquecimento de base causado pelas emissões de gases com efeito de estufa. Os modelos climáticos preveem que:
- A temperatura média global em 2026 deverá ser entre 1,4°C e 1,7°C acima dos valores pré-industriais
- Existe uma probabilidade não desprezável de superar temporariamente o limiar de 1,5°C definido pelo Acordo de Paris
- O período 2026-2027 pode ser o mais quente de que há registo
Como se monitoriza El Nino?
O acompanhamento de El Nino é feito por uma rede global de instrumentos e modelos climáticos:
- Boias oceanográficas TAO/TRITON: Medem a temperatura da superfície do mar e os ventos em tempo real no Pacífico equatorial
- Satélites oceanográficos: Monitorizam o nível do mar e a temperatura superficial
- Índice ONI (Oceanic Nino Index): Indicador oficial utilizado pela NOAA para declarar a presença de El Nino (anomalia superior a 0,5°C durante 5 trimestres consecutivos)
- Modelos de previsão sazonal: ECMWF, NOAA, Copernicus e outros centros emitem previsões mensais
El Nino e as alterações climáticas: uma combinação preocupante
O debate científico atual centra-se na interação entre El Nino e as alterações climáticas. Embora El Nino seja um fenómeno natural, as emissões humanas de CO2 e outros gases de estufa:
- Elevam a temperatura de base dos oceanos, tornando os episódios de El Nino mais quentes
- Potencialmente tornam os extremos climáticos associados mais intensos (mais chuva nas zonas propensas, mais seca onde já existe)
- Podem alterar a frequência ou o timing do ciclo ENSO a longo prazo, embora esta questão permaneça em investigação ativa
O que fazer para se preparar?
Embora Portugal não seja afetado diretamente por El Nino, é prudente:
- Acompanhar os boletins climatológicos do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA)
- Reforçar a prevenção de incêndios florestais durante o verão
- Gerir os recursos hídricos com critério perante a possibilidade de períodos de seca
- Estar atento a vagas de calor que podem ser mais intensas e prolongadas
Perguntas frequentes
El Nino e La Nina são o mesmo fenómeno?
Não. El Nino e La Nina são as duas fases opostas do ciclo ENSO. El Nino corresponde ao aquecimento anómalo das águas do Pacífico equatorial, enquanto La Nina corresponde ao arrefecimento. Ambos afetam o clima global, mas de formas diferentes e em regiões distintas.
Com que frequência ocorre El Nino?
El Nino ocorre em média a cada 2-7 anos, com duração típica de 9 a 18 meses. Não existe uma periodicidade fixa. Os episódios variam em intensidade: fracos, moderados, fortes e muito fortes.
El Nino 2026 vai ser forte?
Segundo as previsões disponíveis em maio de 2026, existe uma probabilidade elevada de um episódio forte a muito forte, com anomalias de temperatura superiores a 2°C na região de referência. Os modelos apontam para o pico do fenómeno no final de 2026 e início de 2027.
Portugal vai ter mais calor por causa de El Nino 2026?
Os efeitos diretos de El Nino em Portugal são limitados. No entanto, o aquecimento global de base que El Nino agrava pode contribuir para vagas de calor mais intensas na Península Ibérica. O principal risco climático para Portugal em 2026 é o dos incêndios florestais, alimentado pelas altas temperaturas e períodos de seca.
Quem monitoriza El Nino em Portugal?
O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) acompanha as previsões do ENSO e publica boletins climáticos regulares. A nível internacional, a NOAA (EUA), o ECMWF e o serviço Copernicus da UE emitem previsões sazonais mensalmente.
El Nino pode causar seca em Portugal?
A influência direta de El Nino sobre a precipitação em Portugal é estatisticamente fraca. No entanto, as interações com os padrões do Atlântico Norte podem, em alguns episódios, contribuir para invernos mais secos. O IPMA analisa estas teleconexões nas suas previsões sazonais.

