O sarampo voltou a ser notícia em Portugal em 2026, com novos casos confirmados pela Direção-Geral da Saúde. Embora Portugal tenha alcançado a eliminação da doença durante vários anos graças a elevadas taxas de vacinação, a redução da cobertura vacinal nalgumas comunidades e os surtos internacionais criam um risco real de reaparecimento. Saiba o que é o sarampo, como se reconhece, como se trata e, sobretudo, como se previne.
O que é o sarampo?
O sarampo é uma doença infeciosa aguda, altamente contagiosa, causada pelo vírus do sarampo, pertencente ao género Morbillivirus da família Paramyxoviridae. Antes da introdução da vacina nos anos 60 do século XX, o sarampo era uma das principais causas de morte infantil em todo o mundo, matando anualmente mais de dois milhões de pessoas.
O vírus do sarampo transmite-se por via aérea, através de gotículas respiratórias e partículas aerossolizadas que permanecem suspensas no ar por até 2 horas após uma pessoa infetada ter passado pelo mesmo espaço. É um dos agentes infeciosos mais contagiosos que se conhecem: um único doente pode infetar entre 12 e 18 pessoas não imunes.
Sarampo em Portugal em 2026: situação atual
Entre 1 de janeiro e 5 de abril de 2026, a Direção-Geral da Saúde confirmou dois casos de sarampo em Portugal:
- Uma criança entre 1 e 4 anos, residente na região de Lisboa e Vale do Tejo
- Um adulto entre 40 e 49 anos, identificado no Alentejo
Em ambos os casos, os doentes não estavam vacinados. Embora o número de casos seja baixo, a DGS alerta para o risco de surto caso a cobertura vacinal continue a cair. Nos últimos anos, campanhas de desinformação sobre vacinas reduziram as taxas de vacinação em algumas comunidades, criando bolsas de vulnerabilidade.
Sintomas do sarampo: como reconhecer
O período de incubação do sarampo é de 10 a 14 dias após a exposição ao vírus, podendo estender-se até 21 dias. A doença evolui em fases:
Fase prodrómica (3 a 5 dias)
Os primeiros sintomas surgem entre 10 a 14 dias após a infeção e incluem:
- Febre alta (pode ultrapassar 40°C)
- Tosse seca e persistente
- Corrimento nasal (coriza)
- Conjuntivite (olhos vermelhos e lacrimejantes)
- Manchas de Koplik: Pequenas manchas brancas com halo vermelho que aparecem no interior das bochechas, junto aos molares — sinal característico e quase exclusivo do sarampo
Fase exantemática (início do exantema)
Dois a quatro dias após o início dos sintomas, surge o característico exantema do sarampo:
- Manchas vermelhas e planas que começam atrás das orelhas e na testa
- Espalham-se progressivamente do rosto para o pescoço, tronco, membros e extremidades
- Em casos mais graves, as manchas podem coalescer, cobrindo grandes superfícies da pele
- A febre é mais elevada durante os primeiros 2 dias do exantema
Complicações do sarampo
O sarampo não é uma doença “inofensiva”, como por vezes se pensa. As complicações podem ser graves, especialmente em crianças pequenas, adultos com mais de 20 anos, grávidas e imunocomprometidos:
- Otite média: A complicação mais frequente, pode levar a perda de audição permanente
- Pneumonia: Causa mais comum de morte por sarampo em crianças
- Encefalite: Inflamação do cérebro, que ocorre em cerca de 1 em cada 1000 casos, podendo causar danos neurológicos permanentes
- Panencefalite esclerosante subaguda (PEES): Complicação neurológica rara e fatal que pode surgir anos após a infeção, mais frequente em crianças infetadas antes dos 2 anos
- Morte: Mesmo em países desenvolvidos, a mortalidade por sarampo não é nula, especialmente em grupos de risco
- Amnésia imunológica: O vírus do sarampo destrói células de memória imunológica, tornando o organismo vulnerável a outras infeções por meses ou anos após a recuperação
Tratamento do sarampo
Não existe nenhum medicamento antiviral específico contra o vírus do sarampo. O tratamento é essencialmente de suporte sintomático:
- Repouso: Fundamental para a recuperação e para evitar contágio
- Hidratação adequada: Líquidos abundantes para compensar a febre e transpiração
- Controlo da febre: Paracetamol ou ibuprofeno (nunca aspirina em crianças)
- Vitamina A: A OMS recomenda a administração de vitamina A em crianças com sarampo, especialmente em países com deficiência nutricional, pois reduz a gravidade e a mortalidade
- Antibióticos: Apenas se houver infeções bacterianas secundárias (como pneumonia bacteriana)
- Isolamento: O doente deve ficar isolado em casa durante pelo menos 4 dias após o aparecimento do exantema
A vacina do sarampo: a melhor proteção
A única forma eficaz de prevenir o sarampo é a vacinação. Em Portugal, a vacina está incluída no Programa Nacional de Vacinação (PNV) sob a forma da vacina VASPR (contra o sarampo, papeira e rubéola):
- Primeira dose: aos 12 meses de vida
- Segunda dose: aos 5 anos
- Duas doses conferem imunidade em mais de 97% das pessoas vacinadas
Para atingir a imunidade de grupo e impedir a circulação do vírus, é necessária uma cobertura vacinal de pelo menos 95% da população. Quando este limiar desce, o vírus pode circular e causam-se surtos, como os que se têm observado em vários países europeus.
Quem deve verificar o seu estado vacinal?
A DGS recomenda que verifiquem o seu estado vacinal:
- Adultos nascidos após 1970 que não saibam se foram vacinados
- Profissionais de saúde
- Pessoas que viajem para países com surtos ativos
- Mulheres que planeiem engravidar (a vacina não pode ser administrada durante a gravidez)
- Crianças não vacinadas por qualquer razão
Para verificar o estado vacinal, consulte o seu boletim de vacinas ou o registo no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Se não tiver certeza, pode vacinar-se de forma segura, pois não há risco em receber doses adicionais.
O que fazer se esteve em contacto com um caso de sarampo?
Se esteve em contacto com alguém com sarampo e não tem certeza da sua imunidade:
- Contacte o SNS 24 (808 24 24 24) ou o seu centro de saúde
- Não vá diretamente a urgências sem avisar previamente para evitar contágio
- Uma dose de vacina nas 72 horas após a exposição pode prevenir ou atenuar a doença
- A imunoglobulina (anticorpos prontos) pode ser administrada em grupos de alto risco nas primeiras 6 dias após a exposição
Perguntas frequentes
O sarampo ainda e perigoso em Portugal?
Sim. Embora os casos sejam atualmente raros, o sarampo continua a ser uma doenca potencialmente grave. As complicacoes como pneumonia, encefalite e amnesia imunologica podem ter consequencias permanentes. Com a queda das taxas de vacinacao em algumas comunidades, o risco de surtos aumenta.
Posso apanhar sarampo se ja fui vacinado?
E raro, mas possivel. Cerca de 3% das pessoas vacinadas com duas doses podem nao desenvolver imunidade completa. No entanto, quando casos de sarampo ocorrem em pessoas vacinadas, a doenca tende a ser mais leve. A protecao e de mais de 97% com duas doses.
O sarampo e diferente da varicela?
Sim, sao doencas completamente diferentes causadas por virus distintos. O sarampo causa manchas vermelhas planas que surgem no rosto e se espalham para o corpo. A varicela causa pequenas bolhas (vesiculas) por todo o corpo que coçam intensamente. Ambas sao prevenidas por vacinas incluidas no PNV.
Posso viajar com uma crianca nao vacinada para paises com sarampo?
Nao e recomendado. Se a crianca tiver mais de 6 meses, a DGS pode recomendar vacinacao antecipada antes da viagem. Consulte o centro de saude pelo menos 4 a 6 semanas antes da viagem para atualizar o calendario vacinal.
O sarampo pode ser confundido com outras doencas?
Sim. Na fase inicial, o sarampo pode ser confundido com outras infeacoes virais. O elemento mais característico e as manchas de Koplik no interior da boca, antes do aparecimento do exantema. O diagnóstico definitivo faz-se por análise de sangue ou urina para confirmação laboratorial do vírus.
Existe tratamento eficaz para o sarampo em 2026?
Nao existe nenhum antiviral específico para o vírus do sarampo aprovado em 2026. O tratamento continua a ser de suporte: repouso, hidratacao, controlo da febre e vitamina A em criancas. A investigacao continua mas a vacina permanece a unica estrategia eficaz.

